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EducaçãoBrasil

Saiba evitar armadilhas ao entrar na universidade privada

Vinícius de Andrade
Vinícius De Andrade
8 de dezembro de 2022

Há instituições particulares com práticas antiéticas para conquistar "clientes" com cursos de má qualidade. Pesquisa e nota do Prouni podem evitar problemas.

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Estudantes, fotografados de costas e todos usando mochilas, se encaminham para campus da Unip em Campinas (SP), em 2022, para fazer o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).
Entrar numa universidade privada, assim como a pública, é motivo de orgulho, mas há instituições que não cumprem promessa de ensino de qualidadeFoto: Leandro Ferreira/Fotoarena/imago images

"Oi, vim aqui compartilhar minha aprovação. Foi em uma faculdade particular. Sei que não foi em uma pública, mas estou feliz mesmo assim."

No início deste ano, recebi essa mensagem de uma estudante compartilhando sua aprovação, e o mesmo já aconteceu outras vezes com outros alunos.

Todas essas mensagens tinham um ponto em comum: pareciam receosos em se sentirem felizes pela aprovação e com medo de não ser algo que merecesse ser comemorado, pelo menos não da mesma forma como os que conseguiam aprovação em uma universidade pública faziam.

Dentro dos cursinhos pré-vestibular, alguns colégios e outras redes de apoio para ingresso no ensino superior, é muito difundida a ideia de que se deve ingressar em uma universidade pública – e a justificativa é muito sólida: são, na maioria, jovens de baixa renda e contribuintes dos impostos que mantêm a subsistência das instituições públicas de ensino superior.

É muito simbólico terem a informação de que elas existem e que saibam que são capazes de ingressar em uma. Além disso, tais instituições possuem políticas de suporte à permanência estudantil. Algo muito importante na tomada de decisão, sobre ingressar ou não naquela instituição, de um jovem de baixa renda.

No entanto, haverá um grupo de jovens que ainda assim irá ingressar em uma universidade privada. Uma parte porque não conseguiu a aprovação na pública e simplesmente não tem condições de tentar outro ano. Outra porque, por qualquer razão que seja, já optou pela privada e a tinha como primeira opção.

O problema é quando fazemos com que os alunos do grupo acima sintam como se tivessem falhado e desencorajados de compartilhar e se orgulhar pela aprovação.

Práticas antiéticas de universidades privadas?

Gostaria de discorrer um pouco sobre a palavra "aprovação", aplicada no contexto do ingresso no ensino superior privado. A razão é que ela pode mascarar algumas práticas antiéticas de algumas instituições privadas de ensino superior e é justamente por isso, como forma de proteção, que alguns educadores sugerem com receio o ingresso em tais faculdades.

Temos no país 154 universidades públicas. Não sei o número exato, mas li uma estimativa recente que temos bem mais de duas mil instituições privadas. Ou seja: há, no Brasil, cerca de 13 vezes mais universidades privadas do que públicas.

É compreensível, dada a grande quantidade, que haja uma grande heterogeneidade dentro das particulares. Algumas são muito organizadas, sérias, estruturadas e possuem um quadro docente de excelência. De modo que seus alunos terão acesso a uma formação de qualidade e terão todos os instrumentos necessários para se posicionarem bem no mercado de trabalho.

Estratégias para atrair clientes

No entanto, há também outras que não possuem a mesma infraestrutura ou qualidade. Infelizmente elas tendem a nem se preocupar com a segunda característica, sendo seu maior, e aparentemente único objetivo, atrair clientes.

Para isso, se utilizam de um marketing antiético para conquistar aqueles estudantes indecisos, que não sabem da existência das universidades públicas, que não se sentem capazes de ingressar em uma ou que simplesmente não conseguiram a aprovação no ano em questão.

Li uma vez o outdoor de uma que tinha no slogan algo do tipo "Não foi aprovado na pública? Corra aqui e faça sua matrícula".

Elas, como qualquer empresa, precisam de clientes e estão dispostas às mais diversas, às vezes perversas, estratégias para atrair especialmente as pessoas sem muita informação sobre o ensino superior de forma geral.

Estas, justamente pela falta de informação, ficam encantadas ao saberem que foram "aprovadas". No entanto, provavelmente nem houve um processo seletivo ou, se houve, foi meramente simbólico, dizendo que o jovem conseguiu uma bolsa.

Este, na maioria das vezes, não lerá o contrato e condições, será surpreendido com taxas e aumentos durante a formação e há uma chance de precisar sair do curso e se endividar. Já vi isso acontecendo mais do que gostaria. 

Pesquisa de referências e nota do Prouni

A Alana, estudante do Maranhão, já optou pela universidade particular. A razão é que não há um campus de universidade pública em sua cidade. Ela já escolheu a instituição em que irá ingressar e pesquisou bastante as referências sobre o local, para se certificar que ingressará em uma escola que preza também pela qualidade.

A jovem fez o Enem e irá utilizar a nota no Prouni (Programa Universidade Para Todos) para conseguir uma bolsa de 100%.

Assim como ela, há muitos outros que também irão pelo mesmo caminho. Isso é um fato. O que podemos e devemos fazer é muni-los de informações, justamente para não caírem em golpes, terem condições de escolher a melhor instituição e não correrem o risco de contraírem dívidas.

Assim como a Alana fará, o caminho indicado e mais seguro é ingressar no ensino privado pelo Prouni. Ele é um programa oficial do governo federal e oferece bolsas integrais ou parciais em instituições privadas de ensino vinculadas. Graças a ele, estudantes de baixa renda tiveram a oportunidade de cursar o ensino superior.

Ele é utilizado através da nota do Enem, ou seja: o vestibular é o Exame Nacional do Ensino Médio. O problema é que o estudante, quando não obtém a nota ou acha demorado esperar o oferecimento do exame, acaba evitando esse meio oficial e caindo em possíveis armadilhas.

Muitos se perguntam: quais as maiores diferenças entre a universidade pública e a privada? Segundo a Carmen, estudante de história na UFOP e já graduada em uma universidade privada, a experiência em cada uma delas foi radicalmente diferente: "O que mais me chama a atenção é o recorte social. Na privada, quando eu cursei só tinha brancos de classe média. Agora aqui tem gente de várias classes sociais, etnias, vindas de várias partes do Brasil."

Além disso, destaca que na instituição particular o enfoque era quase que exclusivo para o mercado de trabalho, enquanto que na pública ela notou um grande enfoque na pesquisa, ciência e em provocar os estudantes para reflexões e discussões.

Para alguns, não importa em qual ingressar, pois "quem faz a universidade é o aluno". Entendo o racional da frase, pois, pensando no extremo, não adianta um estudante ingressar na melhor universidade do país e não se dedicar nem um pouco. Se fizer isso, provavelmente, não será um bom profissional.

No entanto, entendo que a frase desconsidera alguns pontos e romantiza a discussão de uma forma negativa, fazendo com que pareça que, em qualquer instituição que o estudante ingressar, ele terá exatamente a mesma formação, a mesma qualidade de ensino e infraestrutura. Isso não é verdade, e tais características são relevantes, sim, para a qualidade da formação.

Portanto, seja no ensino superior público ou privado, é sugerido pesquisar sobre questões gerais de cada instituição, sobre a qualidade do curso em questão naquele lugar e sobre outros aspectos relevantes para a tomada de decisão.

Se, dadas as diferenças entre elas e as expectativas em relação à vida universitária, a escolha for pela pública, é bom pesquisar sobre as políticas de auxílio de permanência de cada instituição.

Se a opção for por uma particular, o caminho seguro é ingressar via Prouni. No entanto, algumas não aceitam esse meio de ingresso. Se for o caso, leia atentamente todas as informações sobre o meio de ingresso e sobre as condições ou natureza da bolsa. Assim, não haverá surpresas negativas durante a jornada.

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Vozes da Educação é uma coluna quinzenal escrita por jovens do Salvaguarda, programa social de voluntários que auxiliam alunos da rede pública do Brasil a entrar na universidade. Revezam-se na autoria dos textos o fundador do programa, Vinícius De Andrade, e alunos auxiliados pelo Salvaguarda em todos os estados da federação. Siga o perfil do Salvaguarda no Instagram em @salvaguarda1

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